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SANTO ANTÔNIO DA PATRULHA

Rememoria- Livros: Interpretações e significados do poder

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Faça do livro seu farol, do conhecimento adquirido sua trilha e assim poderás escolher com segurança a estrada a percorrer.”

Hoje, 29, Dia Nacional do Livro, fui buscar nos arquivos do Manifesto Rapadura um artigo que fala da importância da leitura. A época, em 2012, relacionei, pelas circunstâncias, acontecimentos daquele período, mas que ao rememorar, avalio que são bastante atuais. Boa leitura e boas reflexões!

Escrito em 26/09/2012- Por Samuel Santos

“Na crônica semanal para o blog Manifesto Rapadura optei por abordar um tema importante: O livro. Mesmo não sendo lembrada e dada a devida relevância, ao menos aqui em Santo Antônio da Patrulha, vivemos a Semana Internacional do Livro. Um momento tão importante quanto outros tantos como, por exemplo, a Semana Farroupilha comemorada à poucos dias. Cada uma das citadas semanas possui seus fatores motivacionais, vieses e  grau de importância no contexto social. Claro, aqui para nós gaúchos, dentro do nosso bairrismo insurgente, a questão Farroupilha faz enaltecer nossos brios.  A história da “revolução” farroupilha na maioria dos livros é contada pela metade ou apenas a verdade que interessa para alguns.

Calma, que fique bem claro, não sou contra as comemorações da semana farroupilha, tão pouco contra o tradicionalismo. Ressalto a importância destes movimentos. Apenas usei deste contexto para ressaltar que histórias podem ser contadas, nos livros e outros meios, com “meias verdades”, ou apenas sob a ótica dos “vencedores”. Mas não é foco neste espaço abordar a  Revolução Farroupilha como uma verdadeira revolução. Quero aqui problematizar sobre a importância dos livros na nossa formação cidadã, já que vivemos num contexto onde a detenção e o acumulo do conhecimento é sinônimo de poder.

Para falar de conhecimento em especial da importância do livro teríamos que nos remotar à escrita cuneiforme feita pelos assírios e babilônios e ao Código de Hamurabi (conjunto de leis transcrito em 1694 a.C.). Também nos reportarmos(ler), segundo alguns, ao primeiro livro a ser configurado de tal forma  com tipos móveis, com capa e encadernado, publicado em 1454 na Alemanha: a Bíblia de 42 linhas de Gutenberg (1397 – 1468). Outros defendem que   a história do livro inicia-se na China. Afirmam que os chineses  teriam inventado um tipo móvel, 400 anos antes de Gutenberg, entre 1041 e 1049.  Pi Shêng seria o escritor que teria inventado o livro  utilizando argila cozida para fabricá-lo. Em qual destas verdades acreditamos?

Resolvi narrar um pouco desta história, que está nos livros, no entanto, controversa,  para que possamos entender que há diversas formas de se contar as “verdades”. E para além das diversas formas contadas, escritas e narradas, entre o livro e o leitor, existem os autores. Independente do conteúdo, romance, ficção, relato de uma história, o livro  relata nada mais do que o sentimento do autor e seu modo de ver e sentir sobre determinada situação, ação e reação em determinado espaço de tempo. Sabemos que todos possuímos nossos vínculos, nossas “afeições”, temos nossas preferências e ideologias. O autor de um livro, artigo, peça de teatro, tele novela, etc. transfere para sua criação aquilo que convém, ou seja, o que melhor se adéqua para ocasião, segundo sua “leitura de mundo”. Complexo não? (darei exemplo no próximo parágrafo).

O conhecimento, que pode ser transmitido de várias formas não só através da literatura, mas principalmente através dos livros, pode ter diversas formas de interpretação. O que dizer de Monteiro Lobato  tido como um dos “maiores escritores brasileiros”, estar sendo processado  por racismo em suas obras?(mais detalhes em Carta capital). Obras estas que fazem parte da formação infanto juvenil, pois estão no conteúdo do Programa Nacional Biblioteca da Escola, que distribui milhões de livros a escolas públicas. Será que as “Crianças e jovens que lêem “Caçadas de Pedrinho” ou outras obras lobatianas, tem a dimensão sobre as questões étnicas raciais? Leitores sentem-se ofendidos quando lêem as histórias do Sítio?”, diz Marisa Lajolo, professora da USP e especialista em Monteiro Lobato em entrevista a Revista Carta Capital. Aqui, mesmo controversa, sentimos que a literatura toca nos brios, cria tensões, inquietudes e moves com os seres da sua “zona de conforto”. Qual o seu sentimento ao ler que a “Tia Nastácia” é  retratada como “macaca de carvão” na obra de Lobato?

O livro, querendo ou não, para o bem ou para o mau, acaba diferenciando o senso das pessoas. Não se trata apenas de elevar o nível intelectual, mas sim de compreender a realidade, os entorno e as essências dos projetos de sociedade que a nós é imposto.

Vivemos tempos de efervescência das redes sociais aqui no Brasil onde vejo muitas pessoas “curtir” absurdos e compartilharem  coisas vazias, sem sentido algum. A grande maioria ocupa seu tempo com promiscuidades que pouco irá contribuir para sua formação. Dito isso, tive a oportunidade de fazer meu estágio em Desenvolvimento Rural na França. Tive vivencias com muitas famílias por lá. Constatei que na grande maioria possuíam bibliotecas particulares. Percebi que o tempo dedicado a TV, a internet, as redes sociais era restrito. Restrito não por imposição, mas por opção. O tempo era empregado em leitura. Continuo me comunicando com um amigo Frances chamado Didier Brosan e vejam o que ele me responde num email referente à um convite que eu fizera para as redes sociais:“J‘ai bien reçu tes propositions de Facebook et Linkelde mais je ne suis pas adepte des réseaux sociaux et ne souhaite pas y consacrer du temps”.Traduzindo: “Recebi suas propostas de LinkedIn e Facebook mas eu não sou um fã de redes sociais e não quero gastar tempo.”

Não percamos nosso tempo. E ao contrário do que muitos pensam a leitura não é necessidade apenas nos bancos escolares e nos meios acadêmicos. Assim como existem as controvérsias sobre a existência do livro, e acerca da sua “paternidade” a leitura nos instiga a questionar a “nossa existência” e o contexto de onde vivemos em fim tudo a nossa volta.

Precisamos compreender e conhecer todas as “faces da verdade”. Não podemos permitir a simplificação de nossa formação, nosso  conteúdo crítico apenas com “informações” à partir de veículos de imprensa. Não quero diminuir a importância de tais veículos, pois são importantes para que possamos contrapor nossas opiniões. Mas é inadmissível que exerçamos nossa cidadania baseados em visões pela metade, com fins comerciais, recheadas de má intenção, reduzindo e até mesmo omitindo as verdades.

Como já diz aquele velho dito popular: “podem me tirar tudo, mas não conseguirão tirar o meu conhecimento”. Então vamos fazer de cada dia, de cada semana, de cada tempo livre: “O dia do livro”,  “A semana da leitura”, “O tempo do conhecimento” e assim possamos contar as nossas próprias verdades.

Ler nos faz compreender o ponto onde estamos e como chegamos até ele. Ajuda-nos a construir o caminho por onde queremos seguir. Faz-nos questionar o caminho que os autores, através de suas obras, livros, revistas,  jornais, e TV’s insinuam como “luz a ser seguida”. Faça do livro seu farol, do conhecimento adquirido sua trilha e assim poderás escolher com segurança a estrada a percorrer.”

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Caos – Comoção- Necessidade de retomada de consciência

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Passei a semana me questionando qual o tema a escrever nesta volta do Manifesto Rapadura. Muitas ideias vieram, mas que ficarão para as próximas semanas, pois a perdas causadas pelos temporais não poderiam ficar fora desta reflexão.

Foto do Filme "Godzilla"

Foto do Filme “Godzilla”

Não vivi muitas estações, mas conversando com aqueles que já passaram por tantas primaveras vem a constatação que as coisas mudaram. “Nunca passamos  por isso.” “ Nunca tinha visto nada parecido”…e por ai vai.

Para os otimistas de plantão ou até mesmo aqueles que intencionalmente dizem: “que isso sempre aconteceu” e que “são fenômenos corriqueiros”- trata-se de questões naturais. O fato é que as perdas, as mais urgentes e as mais perceptíveis, felizmente ou infelizmente são materiais. Telhas quebradas, móveis danificados, plantações perdidas, etc.

A solidariedade é algo comovente. Mobilizações e campanhas emergem nos seres humanos sentimentos abstratos de compaixão, afeto, gratidão e amor ao próximo. Emocionante. Mas é muito pouco. A maioria das ações resolvem ou amenizam num curtíssimo prazo. Os locais mais atingidos e as perdas são maiores em regiões periféricas, de menor distribuição de renda, em fim, pros mais vulneráveis.

Para além das questões financeiras, das perdas pontuais precisamos nos ater as nossas práticas de consumo que ficam longe do nosso senso e da nossa consciência. Tudo que estamos vivenciando  são reflexos ou fazem parte de um modelo de sociedade que a cada dia dá seus sinais, como o que aconteceu aqui. Isso deixa claro, e é só refletir um pouquinho, que este modelo está falido.

Precisamos compreender  que temos um modelo de desenvolvimento que é extremamente imediatista, consumista, individualista que tem como seu fim apenas as questões econômicas. Gerar riqueza à todo e qualquer custo. É claro que só há riqueza gerando pobreza. Vide notícias do oportunismo em aumentar valores de telhas e lonas em momentos críticos, como o que passamos. “Precisamos” e somos “forçados” a sustentar um sistema descartável, impessoal, destrutivo e explorador.  A nossa comoção passará. Por isso é preciso uma reflexão mais profunda, para que o caos não se naturalize, pois há motivações e respostas para estes sinistros, cada vez mais frequentes e arrasadores, mas que não são vistos tão facilmente.

Na agricultura os agricultores são forçados, inclusive por algumas politicas de Estado, a consumirem. Consomem pacotes tecnológicos, geralmente com “funcionalidade casada” (sementes e insumos) e até induzidos ao consumo de equipamentos supérfluos, como tratores com grande potência, mas que ficam grande parte do tempo guardado e sem uso.  As terras deixam de serem símbolos de reprodução social e ambiental para apenas fins econômicos.  Se é pouca área, amplia-se as fronteiras produtivas a custo dos desmates, mudanças de córregos, rios,  subtração de fauna e flora, etc.

Nesta lógica perversa, sendo a questões reduzidas a apenas produção e econômica, se faz necessária a alta tecnologia. Reflexo disso é o que apontam pesquisas da ABRASCO- Associação Brasileira de Saúde Coletiva– revela que se somados todos os litros de agrotóxicos, pesticidas e fungicidas  comercializados (legalmente)e dividirmos pelo número de habitantes, indiretamente, cada um de nós brasileiros, ingerimos anualmente cerca de 6, 1 litros de veneno… Isso mesmo: 6,1 litros de VENENO!!!

O Brasil passou a ser destinação de insumos e sementes proibidas em vários países do mundo. Não serve mais lá: os brasileiros consomem. Estudo realizado pela Universidade Francesa e publicados pela revista “Food and Chemical Toxicology”  apresentas resultados alarmantes. Ratos que consumiram sementes transgênicas de milho de determinada marca( já proibida a comercialização em países da Europa) apontam para uma mortalidade assustadora. Motivo: CANCER. Mas a semente é cancerígena? Sim. Por ser modificada geneticamente ela recebe um “gen” de um herbicida (veneno) que após o plantio deixa a planta resistente ao próprio herbicida. Porque? Na da “limpeza” da lavoura, com a justificativa de facilidade, será “consumido” o próprio herbicida de uma grande corporação. Pasmem, ainda são cobrados Royalties, ou seja, agricultores tem que pagar “direitos” para usarem esta “tecnologia”. Bem, se a semente é cancerígena o produto final fruto dos “casamentos” também serão. Lembram-se daqueles pacotes descritos a cima? São só econômicos. A saúde de quem consome? Os animais que se alimentam nas lavouras? Os animais que são alimentados pra darem sequência na nossa cadeia alimentar? Os impactos nos solos? Os impactos nos lençóis freáticos? Os nossos rios? As nossas nascentes d’agua?

Na cidade, não temos mais lugares para carros. Mobilidade Urbana? Não. Apenas uma politica econômica para supostamente “dar empregos”, mas que apenas serve para concentração de poder, pois alimenta uma cadeia muito maior que das montadoras de automóveis. Como andam estes carros? Combustível. De onde vem este combustível? A que preço? Quem lucra com isso? Além disso, quantas vezes já ouvimos falar em emissão de gases dos veículos? Efeito Estufa? Raios UV? Mesmo assim diminuíram a produção de carros e aumentaram as bicicletas? Aumentaram o IPI dos carros e teve promoção para compra de bicicletas? Mas tem tecnologia nos carros de ultima geração? Ah, foi um “esquecimento” daquela montadora numa peça dos catalizadores de milhões de carros por ela fabricados? E será que não há outros “esquecimentos”?

Nossas tecnologias estão cada vez mais descartáveis.  Não temos mais espaços para empilhar “velharias”, que na maioria das vezes tem poucos meses de uso.  Se continuarmos assim não teremos mais planeta de tantos bens “inúteis” comprados, consumidos e descartados. Descartados, na grande maioria das vezes, onde?

No topo da pirâmide, uma pequena minoria que lucra e investe alto em pesquisas para encontrar água em Marte, já prevendo a catástrofe aqui. No meio um número razoável que supostamente foram “inclusos”, pois aumentaram seu poder de compra, ou seja, agora são consumidores em potencial. E na parte de baixo aqueles que não tem poder de consumo são descartáveis. Moram à baixo dos níveis dos rios, suas “moradias” são frágeis e sem nenhum poder de reação, contando apenas com a solidariedade dos outros.

Dito tudo isso, encerro, reafirmando que nossa solidariedade é importante. Agora, isso, apenas, não resolverá. Precisamos entender que estamos num sistema. Nada é por caso. Tudo é pensando e articulado. Nossos bens naturais são finitos. Nesta briga existem lados. De fato, você consegue compreender em que lado deve estar?

Ou lutamos por um futuro mais digno, mais igual, mais justo, com menos consumo e mais consciência ou quem vai continuar lucrando, até não sei quando, serão as fábricas de telhas, as lojas de móveis, de eletrônicos, dos carros, dos insumos, etc. Tudo é feito pra ser consumido e descartado. Nossa vida e a natureza não são bens de consumo.

Se não haver uma retomada na nossa consciência, a ordem do consumo será restabelecida até que uma nova catástrofe aconteça e nossa comoção entre em ação novamente.

 

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