Opiniões, debates e posições. Direto da terra dos sonhos…e da rapadura

Samuel Santos

Quadrinho didático desconstrói falácia da ‘meritocracia’

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Meritocracia? De forma quase didática, um ilustrador australiano resumiu bem como a ideia de que as pessoas têm as mesmas oportunidades não é verdadeira

Fonte: Revista Fórum

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Revista Fórum

É muito comum no Brasil, principalmente depois da ascensão de parte da população com os programas de transferência de renda do governo, algumas pessoas recorrerem ao conceito de “meritocracia”.

Essa ideia é, normalmente, utilizada para criticar as medidas sociais usando a justificativa de que todos têm as mesmas oportunidades e que o mérito verdadeiro – o sucesso profissional, por exemplo – depende unica e exclusivamente do esforço individual.

De modo simples e quase didático, o ilustrador australiano Toby Morris consegue desconstruir esse conceito. Por meio de duas histórias distintas, em um quadrinho intitulado “On a Plate” [em português, De Bandeja], Morris resume bem a condição a que muitos estão submetidos e expõe os privilégios que os defensores da meritocracia carregam consigo e não enxergam.

Confira a versão com a tradução livre feita pelo Catavento.

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Para alimentar-se (e viver ) bem.

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Festival Internacional de Cinema e Alimentação expõe emergência do filme-comida e mostra como plantar, cozinhar e comer constituem outra forma de estar no mundo

Por Julicristie M. Oliveira*

Durante quatro dias de setembro, Pirenópolis, no entorno de Brasília, sediou o 6º Slow Filme – o Festival Internacional de Cinema e Alimentação. Em meio a cachoeiras e ao cerrado, foram exibidos gratuitamente, no simpático Cine Pireneus, 19 títulos nacionais e internacionais. Organizado pela Objeto Sim e outros parceiros, o festival foi marcado, também, por degustações e oficinas paralelas.

Somos o que comemos e vivemos....

Somos o que comemos e vivemos….

Na abertura, foram apresentados dois documentários que discutiam sabores e saberes tradicionais do Brasil. Um deles, Engenhos da Cultura – Teias Agroecológicas, de Gabriella Pieroni e Fernando Angeoletto, trata do movimento de agricultore(a)s e militantes no processo do registro, recuperação e manutenção dos engenhos de farinha de mandioca, em Santa Catarina. Há destaque para a qualidade do produto, especialmente na elaboração do pirão, a importância da rede de apoio social que é mantida entre o(a)s agricultore(a)s, a viabilidade econômica e o papel na Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. O documentário é muito interessante e está disponívelno Vimeo.

Outro documentário que fez parte da programação e merece destaque é O produtor de chocolate, de Rohan Fernando, filme canadense que registra a história de vida de um produtor de cacau do Belize, o Eladio, e suas relações profissionais e familiares. Os dilemas e os conflitos quanto à manutenção dos conhecimentos agrícolas ancestrais (maias) e o uso de tecnologias, como os agrotóxicos, ficam evidentes. Despontam também, no desenrolar do filme, os conflitos intergeracionais, as questões de gênero e a desagregação das relações de cooperação da comunidade. A beleza da história, porém, reside no sentimento de conexão com a natureza, o cultivo e o cacau expressos por Eladio.

Em Cultivando as Cidades – Hortas e Canteiros Urbanos, de Dan Susman, várias experiências de hortas urbanas e comunitárias são vistas e debatidas em um estilo bem americano de produção de documentário. Apesar de mostrar apenas as possibilidades e vantagens da agricultura urbana, foi interessante entrar em contato com uma diversidade tão grande de projetos e objetivos. Senti falta de uma discussão sobre áreas onde o cultivo estaria limitado em decorrência da poluição do ar, solo e água, bem como dos entraves que geram a descontinuidade dos projetos.

Para mim, o prato principal do festival foi a ficção Pequena Floresta – Verão & Outono, de Jun’ichi Mori, que conta a história de Ichiko, uma jovem que vive em Komori, área rural distante de supermercados. Ichiko planta e colhe a maior parte de seus alimentos. Eventualmente, compra alguns ingredientes. Ela aproveita o que as estações, Verão & Outono, oferecem, cria estratégias de conservação e cozinha com base nos conhecimentos culinários aprendidos com sua mãe. Em muitas cenas, o presente e as memórias são intercaladas, os diálogos de infância são lembrados, matizados pelo sabor dos pratos reelaborados por Ichiko. Várias frases ditas por sua mãe ganham novamente vida no presente, como “a comida é um reflexo da mente” que reforça a importância da concentração do processo de cozinhar. Pequena Floresta é uma poesia comestível dividida em quatro estações: linda, complexa, sensível. Ainda preciso provar o Inverno & Primavera, que não foi exibido no festival.

Nos quatro filmes, ficam evidentes as conexões entre o cultivar, o cozinhar e o comer. Infelizmente, no festival não foram previstos debates após as exibições. Seria interessante ter uma chance de discuti-los, conhecer a percepção e identificar os sentimentos provocados e saboreados pelo público, do doce ao amargo.


* Professora da Faculdade de Ciêncais Aplicadas (FCA)/Unicamp

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Caos – Comoção- Necessidade de retomada de consciência

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Passei a semana me questionando qual o tema a escrever nesta volta do Manifesto Rapadura. Muitas ideias vieram, mas que ficarão para as próximas semanas, pois a perdas causadas pelos temporais não poderiam ficar fora desta reflexão.

Foto do Filme "Godzilla"

Foto do Filme “Godzilla”

Não vivi muitas estações, mas conversando com aqueles que já passaram por tantas primaveras vem a constatação que as coisas mudaram. “Nunca passamos  por isso.” “ Nunca tinha visto nada parecido”…e por ai vai.

Para os otimistas de plantão ou até mesmo aqueles que intencionalmente dizem: “que isso sempre aconteceu” e que “são fenômenos corriqueiros”- trata-se de questões naturais. O fato é que as perdas, as mais urgentes e as mais perceptíveis, felizmente ou infelizmente são materiais. Telhas quebradas, móveis danificados, plantações perdidas, etc.

A solidariedade é algo comovente. Mobilizações e campanhas emergem nos seres humanos sentimentos abstratos de compaixão, afeto, gratidão e amor ao próximo. Emocionante. Mas é muito pouco. A maioria das ações resolvem ou amenizam num curtíssimo prazo. Os locais mais atingidos e as perdas são maiores em regiões periféricas, de menor distribuição de renda, em fim, pros mais vulneráveis.

Para além das questões financeiras, das perdas pontuais precisamos nos ater as nossas práticas de consumo que ficam longe do nosso senso e da nossa consciência. Tudo que estamos vivenciando  são reflexos ou fazem parte de um modelo de sociedade que a cada dia dá seus sinais, como o que aconteceu aqui. Isso deixa claro, e é só refletir um pouquinho, que este modelo está falido.

Precisamos compreender  que temos um modelo de desenvolvimento que é extremamente imediatista, consumista, individualista que tem como seu fim apenas as questões econômicas. Gerar riqueza à todo e qualquer custo. É claro que só há riqueza gerando pobreza. Vide notícias do oportunismo em aumentar valores de telhas e lonas em momentos críticos, como o que passamos. “Precisamos” e somos “forçados” a sustentar um sistema descartável, impessoal, destrutivo e explorador.  A nossa comoção passará. Por isso é preciso uma reflexão mais profunda, para que o caos não se naturalize, pois há motivações e respostas para estes sinistros, cada vez mais frequentes e arrasadores, mas que não são vistos tão facilmente.

Na agricultura os agricultores são forçados, inclusive por algumas politicas de Estado, a consumirem. Consomem pacotes tecnológicos, geralmente com “funcionalidade casada” (sementes e insumos) e até induzidos ao consumo de equipamentos supérfluos, como tratores com grande potência, mas que ficam grande parte do tempo guardado e sem uso.  As terras deixam de serem símbolos de reprodução social e ambiental para apenas fins econômicos.  Se é pouca área, amplia-se as fronteiras produtivas a custo dos desmates, mudanças de córregos, rios,  subtração de fauna e flora, etc.

Nesta lógica perversa, sendo a questões reduzidas a apenas produção e econômica, se faz necessária a alta tecnologia. Reflexo disso é o que apontam pesquisas da ABRASCO- Associação Brasileira de Saúde Coletiva– revela que se somados todos os litros de agrotóxicos, pesticidas e fungicidas  comercializados (legalmente)e dividirmos pelo número de habitantes, indiretamente, cada um de nós brasileiros, ingerimos anualmente cerca de 6, 1 litros de veneno… Isso mesmo: 6,1 litros de VENENO!!!

O Brasil passou a ser destinação de insumos e sementes proibidas em vários países do mundo. Não serve mais lá: os brasileiros consomem. Estudo realizado pela Universidade Francesa e publicados pela revista “Food and Chemical Toxicology”  apresentas resultados alarmantes. Ratos que consumiram sementes transgênicas de milho de determinada marca( já proibida a comercialização em países da Europa) apontam para uma mortalidade assustadora. Motivo: CANCER. Mas a semente é cancerígena? Sim. Por ser modificada geneticamente ela recebe um “gen” de um herbicida (veneno) que após o plantio deixa a planta resistente ao próprio herbicida. Porque? Na da “limpeza” da lavoura, com a justificativa de facilidade, será “consumido” o próprio herbicida de uma grande corporação. Pasmem, ainda são cobrados Royalties, ou seja, agricultores tem que pagar “direitos” para usarem esta “tecnologia”. Bem, se a semente é cancerígena o produto final fruto dos “casamentos” também serão. Lembram-se daqueles pacotes descritos a cima? São só econômicos. A saúde de quem consome? Os animais que se alimentam nas lavouras? Os animais que são alimentados pra darem sequência na nossa cadeia alimentar? Os impactos nos solos? Os impactos nos lençóis freáticos? Os nossos rios? As nossas nascentes d’agua?

Na cidade, não temos mais lugares para carros. Mobilidade Urbana? Não. Apenas uma politica econômica para supostamente “dar empregos”, mas que apenas serve para concentração de poder, pois alimenta uma cadeia muito maior que das montadoras de automóveis. Como andam estes carros? Combustível. De onde vem este combustível? A que preço? Quem lucra com isso? Além disso, quantas vezes já ouvimos falar em emissão de gases dos veículos? Efeito Estufa? Raios UV? Mesmo assim diminuíram a produção de carros e aumentaram as bicicletas? Aumentaram o IPI dos carros e teve promoção para compra de bicicletas? Mas tem tecnologia nos carros de ultima geração? Ah, foi um “esquecimento” daquela montadora numa peça dos catalizadores de milhões de carros por ela fabricados? E será que não há outros “esquecimentos”?

Nossas tecnologias estão cada vez mais descartáveis.  Não temos mais espaços para empilhar “velharias”, que na maioria das vezes tem poucos meses de uso.  Se continuarmos assim não teremos mais planeta de tantos bens “inúteis” comprados, consumidos e descartados. Descartados, na grande maioria das vezes, onde?

No topo da pirâmide, uma pequena minoria que lucra e investe alto em pesquisas para encontrar água em Marte, já prevendo a catástrofe aqui. No meio um número razoável que supostamente foram “inclusos”, pois aumentaram seu poder de compra, ou seja, agora são consumidores em potencial. E na parte de baixo aqueles que não tem poder de consumo são descartáveis. Moram à baixo dos níveis dos rios, suas “moradias” são frágeis e sem nenhum poder de reação, contando apenas com a solidariedade dos outros.

Dito tudo isso, encerro, reafirmando que nossa solidariedade é importante. Agora, isso, apenas, não resolverá. Precisamos entender que estamos num sistema. Nada é por caso. Tudo é pensando e articulado. Nossos bens naturais são finitos. Nesta briga existem lados. De fato, você consegue compreender em que lado deve estar?

Ou lutamos por um futuro mais digno, mais igual, mais justo, com menos consumo e mais consciência ou quem vai continuar lucrando, até não sei quando, serão as fábricas de telhas, as lojas de móveis, de eletrônicos, dos carros, dos insumos, etc. Tudo é feito pra ser consumido e descartado. Nossa vida e a natureza não são bens de consumo.

Se não haver uma retomada na nossa consciência, a ordem do consumo será restabelecida até que uma nova catástrofe aconteça e nossa comoção entre em ação novamente.

 

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