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Caos – Comoção- Necessidade de retomada de consciência

Passei a semana me questionando qual o tema a escrever nesta volta do Manifesto Rapadura. Muitas ideias vieram, mas que ficarão para as próximas semanas, pois a perdas causadas pelos temporais não poderiam ficar fora desta reflexão.

Foto do Filme "Godzilla"

Foto do Filme “Godzilla”

Não vivi muitas estações, mas conversando com aqueles que já passaram por tantas primaveras vem a constatação que as coisas mudaram. “Nunca passamos  por isso.” “ Nunca tinha visto nada parecido”…e por ai vai.

Para os otimistas de plantão ou até mesmo aqueles que intencionalmente dizem: “que isso sempre aconteceu” e que “são fenômenos corriqueiros”- trata-se de questões naturais. O fato é que as perdas, as mais urgentes e as mais perceptíveis, felizmente ou infelizmente são materiais. Telhas quebradas, móveis danificados, plantações perdidas, etc.

A solidariedade é algo comovente. Mobilizações e campanhas emergem nos seres humanos sentimentos abstratos de compaixão, afeto, gratidão e amor ao próximo. Emocionante. Mas é muito pouco. A maioria das ações resolvem ou amenizam num curtíssimo prazo. Os locais mais atingidos e as perdas são maiores em regiões periféricas, de menor distribuição de renda, em fim, pros mais vulneráveis.

Para além das questões financeiras, das perdas pontuais precisamos nos ater as nossas práticas de consumo que ficam longe do nosso senso e da nossa consciência. Tudo que estamos vivenciando  são reflexos ou fazem parte de um modelo de sociedade que a cada dia dá seus sinais, como o que aconteceu aqui. Isso deixa claro, e é só refletir um pouquinho, que este modelo está falido.

Precisamos compreender  que temos um modelo de desenvolvimento que é extremamente imediatista, consumista, individualista que tem como seu fim apenas as questões econômicas. Gerar riqueza à todo e qualquer custo. É claro que só há riqueza gerando pobreza. Vide notícias do oportunismo em aumentar valores de telhas e lonas em momentos críticos, como o que passamos. “Precisamos” e somos “forçados” a sustentar um sistema descartável, impessoal, destrutivo e explorador.  A nossa comoção passará. Por isso é preciso uma reflexão mais profunda, para que o caos não se naturalize, pois há motivações e respostas para estes sinistros, cada vez mais frequentes e arrasadores, mas que não são vistos tão facilmente.

Na agricultura os agricultores são forçados, inclusive por algumas politicas de Estado, a consumirem. Consomem pacotes tecnológicos, geralmente com “funcionalidade casada” (sementes e insumos) e até induzidos ao consumo de equipamentos supérfluos, como tratores com grande potência, mas que ficam grande parte do tempo guardado e sem uso.  As terras deixam de serem símbolos de reprodução social e ambiental para apenas fins econômicos.  Se é pouca área, amplia-se as fronteiras produtivas a custo dos desmates, mudanças de córregos, rios,  subtração de fauna e flora, etc.

Nesta lógica perversa, sendo a questões reduzidas a apenas produção e econômica, se faz necessária a alta tecnologia. Reflexo disso é o que apontam pesquisas da ABRASCO- Associação Brasileira de Saúde Coletiva– revela que se somados todos os litros de agrotóxicos, pesticidas e fungicidas  comercializados (legalmente)e dividirmos pelo número de habitantes, indiretamente, cada um de nós brasileiros, ingerimos anualmente cerca de 6, 1 litros de veneno… Isso mesmo: 6,1 litros de VENENO!!!

O Brasil passou a ser destinação de insumos e sementes proibidas em vários países do mundo. Não serve mais lá: os brasileiros consomem. Estudo realizado pela Universidade Francesa e publicados pela revista “Food and Chemical Toxicology”  apresentas resultados alarmantes. Ratos que consumiram sementes transgênicas de milho de determinada marca( já proibida a comercialização em países da Europa) apontam para uma mortalidade assustadora. Motivo: CANCER. Mas a semente é cancerígena? Sim. Por ser modificada geneticamente ela recebe um “gen” de um herbicida (veneno) que após o plantio deixa a planta resistente ao próprio herbicida. Porque? Na da “limpeza” da lavoura, com a justificativa de facilidade, será “consumido” o próprio herbicida de uma grande corporação. Pasmem, ainda são cobrados Royalties, ou seja, agricultores tem que pagar “direitos” para usarem esta “tecnologia”. Bem, se a semente é cancerígena o produto final fruto dos “casamentos” também serão. Lembram-se daqueles pacotes descritos a cima? São só econômicos. A saúde de quem consome? Os animais que se alimentam nas lavouras? Os animais que são alimentados pra darem sequência na nossa cadeia alimentar? Os impactos nos solos? Os impactos nos lençóis freáticos? Os nossos rios? As nossas nascentes d’agua?

Na cidade, não temos mais lugares para carros. Mobilidade Urbana? Não. Apenas uma politica econômica para supostamente “dar empregos”, mas que apenas serve para concentração de poder, pois alimenta uma cadeia muito maior que das montadoras de automóveis. Como andam estes carros? Combustível. De onde vem este combustível? A que preço? Quem lucra com isso? Além disso, quantas vezes já ouvimos falar em emissão de gases dos veículos? Efeito Estufa? Raios UV? Mesmo assim diminuíram a produção de carros e aumentaram as bicicletas? Aumentaram o IPI dos carros e teve promoção para compra de bicicletas? Mas tem tecnologia nos carros de ultima geração? Ah, foi um “esquecimento” daquela montadora numa peça dos catalizadores de milhões de carros por ela fabricados? E será que não há outros “esquecimentos”?

Nossas tecnologias estão cada vez mais descartáveis.  Não temos mais espaços para empilhar “velharias”, que na maioria das vezes tem poucos meses de uso.  Se continuarmos assim não teremos mais planeta de tantos bens “inúteis” comprados, consumidos e descartados. Descartados, na grande maioria das vezes, onde?

No topo da pirâmide, uma pequena minoria que lucra e investe alto em pesquisas para encontrar água em Marte, já prevendo a catástrofe aqui. No meio um número razoável que supostamente foram “inclusos”, pois aumentaram seu poder de compra, ou seja, agora são consumidores em potencial. E na parte de baixo aqueles que não tem poder de consumo são descartáveis. Moram à baixo dos níveis dos rios, suas “moradias” são frágeis e sem nenhum poder de reação, contando apenas com a solidariedade dos outros.

Dito tudo isso, encerro, reafirmando que nossa solidariedade é importante. Agora, isso, apenas, não resolverá. Precisamos entender que estamos num sistema. Nada é por caso. Tudo é pensando e articulado. Nossos bens naturais são finitos. Nesta briga existem lados. De fato, você consegue compreender em que lado deve estar?

Ou lutamos por um futuro mais digno, mais igual, mais justo, com menos consumo e mais consciência ou quem vai continuar lucrando, até não sei quando, serão as fábricas de telhas, as lojas de móveis, de eletrônicos, dos carros, dos insumos, etc. Tudo é feito pra ser consumido e descartado. Nossa vida e a natureza não são bens de consumo.

Se não haver uma retomada na nossa consciência, a ordem do consumo será restabelecida até que uma nova catástrofe aconteça e nossa comoção entre em ação novamente.

 

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